segunda-feira, março 27, 2006

A DANÇA DA BRUXA

OBrasil é chato. Seus ricos são burros, cúpidos e aborrecidos. O povo não é melhor. Há exceções aqui e ali. E daí? Democracia é o regime da média. A alternativa, como disse aquele, é bem pior. A deputada Ângela Guadagnin (PT-SP), a Madame Mim das instituições, fazendo a Dança do Mensalão, é um emblema antropológico. O horror, o horror! Chegamos ao coração das trevas.

E nem falo isso do alto da experiência de quem viveu em outros países ou gostasse de fazê-lo. Nunca morei fora. Aonde eu fosse, como Sêneca, levaria o espírito. O céu que me cobre é irrelevante. O que não me impede de ter um juízo absoluto. A culpa não é dos outros, é nossa. Gostam de malhar os portugueses, a herança ibérica. Os mais requintados recorrem a “Os donos do poder”, de Raymundo Faoro. Bobagem. O trabalho é erudito, há passagens brilhantes, mas a tese sobre o Brasil é furada — vale pelo estudo sobre a formação do Estado nacional português. Exerce, com sofisticação, o velho e conhecido vitimismo. Impossível não concluir que somos só uma realidade derivada, tão inimputáveis quanto os nhambiquaras. É mentira.

A culpa é dos ditos oprimidos também. Ou será que alguém ignora, por exemplo, as lambanças do PT? Contam-se nos dedos os que não conhecem, a esta altura, as venturas e desventuras de Lula, Delúbio e Valério. Os “homens do povo” podem não acompanhar as histórias no detalhe, mas sabem o essencial, conhecem a roubalheira. E, ainda assim, dizem por ora as pesquisas, querem mais do mesmo. Se chegassem, de fato, ao poder, fariam a mesma coisa. Talvez pior. Porque carregariam para o topo o ódio subalterno. A genealogia da moral explica. A corte de Stalin fala por si. Pelegos como Lula, Luiz Marinho, Berzoini e cúmplices talvez sejam danos menores que o perigo...

A sociologia tenta entender como se forma o caráter dos povos, atribuindo grande peso à formação cultural, até se afunilar na antropologia, que a toma como valor absoluto. Não chega a lugar nenhum. O culturalismo é um chute. O único instrumento que civiliza um país e o faz avançar é o cumprimento das leis e sua severa execução. A impunidade destrói qualquer chance de futuro. Se a lei é cumprida, do topo à base da pirâmide, entra-se numa espiral positiva de direitos e deveres. Se não é, dá nisso que estamos vendo cotidianamente. Madame Mim faz a Dança do Mensalão, e o pai de família honrado suborna o guarda na frente do filho. Se ele não o fizer, outro o fará. O guarda espera o suborno.

Não sou apocalíptico. Só pessimista. É que hoje decidi dar um pé no traseiro do idiota hegeliano que habita em mim. Há algo de doente em toda aposta no futuro. Vejam lá os mensaleiros se absolvendo uns aos outros. Coisa degradante, articulada entre o cálculo desse e daquele partido, tramada no escurinho dos corredores, no minueto que junta, muitas vezes, governistas e oposicionistas numa verdadeira conspiração contra a vergonha na cara.

Dentre outras milhares de coisas, o que me distingue da esquerda? A certeza de que o “povo” não é melhor do que isso. Tanto não é que, por enquanto, a maioria vota é no Apedeuta. “Ah, eles são comprados pelo Bolsa-qualquer-coisa, coitadinhos!” Se eu lhes conceder essa desculpa, terei de optar pela saída leninista: passar fogo na tigrada! Faria como Stalin quando quis quebrar a espinha dos camponeses.

O país merece o PT. Nunca tivemos um Judiciário como este; nunca tivemos um Executivo como este; nunca tivemos um Legislativo como este. Nunca tivemos um “povo” como este. Em vez dos varões de Plutarco, os anões morais das pequenas e grandes trocas. Não há projeto. Em lugar nenhum. A idéia assusta um pouco os meus amigos liberais. Alguns a confundem com um viés intervencionista, estatista, sei lá eu. É preciso ter um projeto, inclusive para que o Estado seja menor e nos deixe em paz. Mas quê... O tal “povo” é subornado e não liga. Os liberais estão muito felizes, agora que o “risco” já passou. Que bom! Então podemos continuar assim, neste ciclo que Mailson da Nóbrega considera “virtuoso”...

Pessimismo, teu nome é honestidade.

Reinaldo Azevedo, Sábado, 25/03/06, O Globo